sábado, 23 de novembro de 2013

O augúrio de meus pensamentos prenuncia o mistério que se move pela mente, carregam consigo o mistério pensante de todas as coisas viventes. Eu, lúgubre, sozinho como sempre fui, sozinho como sempre serei, envolvo-me nos eflúvios poéticos de minha frases que surgem do nada absconso do mundo das ideias de meu ser. Sinto a intensidade de meus pensamentos como uma tempestade furiosa, mas cai-se os pensamentos na língua mulambenta, e tropega falha em expressar suas absolutas sensações. Sinto ao pensar, mas não sinto ao falar. Dói me a consciência como se pústulas a infectassem com a maldição da razão de pensar e questionar. Quero gritar ao mundo minhas verdades que comigo trago, mas ao escorrer os pensamentos pelos cominhos que os fazem palavras, perdem sua potencialidade, deixando-me na cruel e insistente vontade de ser entendio, assim como o mudo quando abre a boca querendo falar, mas se frustra intensamente ao perceber que ninguém entende uma única palavra que sai de sua boca. *** Escrever, tal arte esta que me encanta, nos faz reler os que já estão mortos como se conversássemos com vossas almas. Das estalactites obscuras do inconsciente tiramos mundos e ideias que expressamos em meias palavras lânguidas para que leiam o íntimo mais verdadeiro de nosso ser. É um ritual que, quando lemos alguém, comemos sua carne imaterial e nos tornamos uno com seu ser mais intimo que há de existir. Mas incomoda-me escrever somente o que já existe. Se falo de árvore de ouro, uso o ouro para juntar a árvore e formar algo que de fato não existe, mas o outro existe, e a árvore também. Instiga-me, perturba-me profundamente a vontade de querer ser mais, de pensar além do mais do mesmo, ir além da experiência e trazer ao mundo ideias que ninguém jamais pensou. *** Penso, ando sempre pensando, mas não é pensar em coisas cotidianas, e sim, penso na consciência do pensar e na natureza que o faz nascer. *** Dói em mim muito mais a consciência de sentir e pensar que as próprias das sensações em si... *** O que é ser? Pergunto-me, mas nunca acho resposta. Observo uma flor e dela seus brotos nascem espontaneamente. Olho para mim mesmo e vejo que ser eu é o mesmo que ser rosa; meus pensamentos brotam naturalmente como os brotos da rosa. A inconsciência da rosa provém de sua natureza de ser inconsciente, e talvez minha consciência tenha como trabalho apreciar a inexistência da rosa, pois ela não sabe que existe, e só existe porque eu a percebo como existente.
"Eu vejo-me e estou sem mim, conheço-me e não sei quem sou"

Fernando Pessoa