terça-feira, 8 de outubro de 2013

Olhos lúgubres que carregam dores profundas. Um andar sombrio que simboliza a canseira moribunda, este sou eu rumando ao pôr-do-sol dos que já estão mortos. Caminho triste, desolado, por tempos que parecem a eternidade. Nódoas terríveis se fizeram em minha alma desolada, pústulas cresceram em meu jardim, e as flores morreram com o fim da alvorada. A aurora morta foge, e em si levou a luz consoladora, deixou-me na frialdade dos horrores e a noite vêm silenciosa, ludibriosa, dar vida aos meus temores. Revestido pelo manto negro, o sórdido silêncio fatal, ferindo meus ouvidos num ritmo entristecido, mergulha-me na paz funérea da noite sepulcral. Anjos ainda permeiam os caminhos de minha vida, são pequenos pirilampos que brilham na profunda escuridão; alguns já se apagaram, outros ainda vivem, outros ainda virão, e todos sempre tentando tirar um sorriso de minha triste face malsão. Agradeço-os pelas suas doces existências, seres de luz que lutam para que eu não perca a essência do pouco de vida que ainda resta em mim. Mas como tudo nesta vida passa, eu, poeta sombrio, ei de seguir sozinho na solidão que é meu destino. Sigo de coração confiante, cravado em meu peito vossas doces lembranças que tivemos neste mundo horrível. Sinto que cheguei à minha estrada final. O calvário já aponta no horizonte, e poderei retornar para a essência de minha fonte primordial. Só quero descansar para todo o sempre. O sangue cravou em meus caminhos, pegadas tristes que ficaram, e todos vão lembrar pelas nódoas rubras que deixei, que neste mundo passou o ser mais triste que já imaginaram. Morre-me a voz amigos. Morre. Morre-me os sentidos paulatinamente. Morre. A navalha chia tristemente na pele. O escarlate intenso do sangue se faz concretizar o destino que me foi confiado: o de suicidar-se. De dor, por entre a dolorosa ferida, eu balbucio, trêmulo, rangendo os dentes num profundo e doloso tormento. Depois, como um beijo que me consola, uma voz soluça na memória, suave como a sinfonia dos pássaros quando cai a aurora, e dos lábios misteriosos da morte cai um beijo. Bendita seja a morte! A minha vida se faz intensamente nos últimos instantes em que eu expirava. O pescoço rubro, aberto feito uma boca disforme, grita seu pesar para o mundo que dorme, acordando-o para mais um triste funeral. Os pássaros cantam em despedida. O vendo lamuria a cântico sepulcral. Lá se vai mais uma alma atormentada repousar no manto misterioso em que se oculta à morte...
Estranho viver num mundo onde aquilo que sustenta toda a vida, aquilo que é o néctar de toda a existência é a cicuta que sou é obrigado a tomar todos os dias. A repulsa pela respiração se torna tão grande que o próprio ato de expirar o ar de meus pulmões, a expiração que simboliza à morte, o fim, é aquilo que me tira um sorriso sincero. Minha vida passa a ser a morte, e a vida em que passo encarcerado pelas grades do cotidiano se torna a pior morte que há de existir. Viver é hoje é não viver. Um sentimento profundo de deixar esta vida é o que carrego dentro de mim. Já não sei como achar a saída deste labirinto em que entrei, e começo a me convencer que sou é a própria tristeza que veio para este mundo a fim de complementar e objetivar a alegria dos outros. A alegria é minha doença, e a tristeza minha única saúde. Viver é uma tortura que me atormenta todos os dias. A relatividade da vida me deixa maluco. Sorrio ironicamente quando vejo pessoas em situações piores que a minha e ainda sorrindo e prezando por mais um dia de vida, enquanto tudo que tenho feito nesses últimos anos é pensar em deixar de viver. Tenho um profundo desejo pela morte, não somente pelo desejo de pôr fim a dor que me assola, mas um desejo poético e filosófico. O ponto final, a despedida é onde a vida se fecha e se completa e todos os seus caminhos tomam um sentido. Vivo somente pela imaginação de senti-la tomando minha miserável vida aos poucos. O derradeiro momento de se entregar ao desconhecido, mergulhar na imaterialidade da inexistência, e talvez sentir a vida nos últimos suspiros como se valesse a pena viver... Meu grande pesar vem da obrigação de ter que viver. De ter que prosseguir mesmo querendo partir. Se minha partida não afetasse as pessoas que me cercam, então a vida seria uma coisa linda para mim, pois deixaria de vivê-la quando bem entendesse... Viver hoje é viver por obrigação...
Não tem sido tempos fáceis. Há muito a vida foi motivo de orgulho. Só o que tenho em mãos hoje é a angustia de tê-la de suportar. Lembranças de outrora em que eu brincava no jardim sob a luz calorosa que se levantava da aurora, hoje não passa de reflexos num espelho torto, disforme, como quando despertamos de um sonho e a mente não consegue formar as imagens com coerência, e a medida que os anos vão avançando menos nos lembramos de tais sonhos. Assim são as lembranças que possuo adormecidas dentro de mim. As únicas coisas que podia chamar de vida hoje já não passam de pesadelos em que, por mais que eu corra atrás delas, parecem se distanciar cada vez mais. Os dias passam como nuvens obscuras que me impedem de enxergar a maravilha do dia. Só o que vejo é trevas. O mundo parece ser um reflexo de mim mesmo, pois estou morto por dentro, e o mundo parece ter morrido junto comigo. Por mais vivacidade que a vida irradie, meus olhos converte em morte tudo aquilo que eles observam. Tudo está morto, assim como a chama que carregava em meu âmago. O próprio ato de respirar me enche de repulsa. Aquilo que é o néctar de todos os seres é a cicuta que sou obrigado a tomar todos os meus dias. Já são tantos anos nesse mundo vazio que penso que a tristeza é minha única alegria e a felicidade é uma doença. Estou cansado, realmente cansado de tudo. Só quero poder deitar aqui e dormir em paz.

sábado, 5 de outubro de 2013

Sôfrego, ávido, tento formular a síntese de meu ser, e nas crípticas absconsas das ideias que me arquitetam, só encontro nas bases de minha estrutura interior uma insistente vontade de não ser, de possuir o que não existe, de viver o que não vivi, ser o outro que havia de ser. Morrendo de saudades do que nunca foi, eu sou aquele que vive na inexistência das coisas; Aquele que suspira com volúpia ao imaginar o mundo sem sua consciência para adorná-lo com falácias que só existem eu meu próprio ser; Sou a mentira de mim mesmo. Não sou quem sou, gostaria de ser quem não sou, pois sei que sou alguma coisa, talvez minha essência seja ser outro, e no ser outro eu encontro a mim mesmo; e no fundo desta bagunça incógnita que trago em meu ser, sinto a vontade de viver se manifestar no desejo de deixar de viver.  Sou a contradição de mim mesmo...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

São tempos estranhos, mórbidos, estes em que, preso às suas celas invisíveis, passo meus tediosos dias nublados. Quem sou eu neste ergástulo temporal da vida? Não sei, nem acho que sei o porquê não sei. A matéria de meu ser viaja pelo espaço rumo a lugar nenhum, perdido no absconso mundo sem ser e sem forma do tempo e espaço. Fecho meus olhos e estendo minha imaginação ao infinito e mergulho no orbe atemporal da consciência, e vejo dentro de cada pensamento revelarem-se universos imaginários tão reais quanto este em que se faz a solidez da matéria bruta. É tão estranho, maluco, mas já não sei em qual destes universos meu ser habita; se sou apenas uma imaginação de mim mesmo, ou o sonho de um Deus entediado. Ando perturbado, ideias me cobrem o ser, e a insanidade parece estender-me os braços quando percebo, em noites de profundos desabafos, a sensação de ser o efeito de minhas ideias, a causação de meus pensamentos, ser imaginário de mim mesmo. Estou completamente perdido em meu próprio ser. Mas como dizia Fernando Pessoa: "Perder-se também é caminho". Então eu trilho na solidão de mim mesmo, revolvendo dentro de minha alma, nesta bagunça memorial que eu carrego, tentando encontrar quem realmente sou... São tempos estranhos estes em que, entre olhares que se esbarram pelas ruas, universos de possibilidades se formam numa dança invisível que molda todos os caminhos da existência. Será que somente eu estou vendo a valsa universal que se revela por trás de cada pensamento humano, de cada escolha que tomamos; E que o mais ínfimo ser é tão significante para a vida quanto às estrelas que refulgem no universo. Perturba-me a consciência quando vejo se desprender das árvores as folhas que cumprem seu tempo de vida, e estas tamborilam pelas calçadas das ruas que, por conseguinte, afetam a vida daqueles que com elas entram em contato, mudando completamente o rumo da vida que esses seres levariam caso não às encontrassem... *** " O cair de uma folha, o bater de asas de uma borboleta é tão significante para a existência quanto qualquer outra coisa. Toda vida se conecta numa teia invisível que nos liga às nossas escolhas. Tudo está interligado. Dizer sim há um instante é dizer sim a toda a existência" *** São tempos estranhos estes em que, em noites que a consciência descansa no profundo sono, vejo-me desperto no mundo onírico cercado de reminiscências que formam um composto aglomerado de tudo aquilo que eu vivi. Como quem assiste um filme, eu vejo minha vida acontecendo simultaneamente em quadros que preenchem a tela de minha mente. É tão estranho, divino, mas quando me entrego a estas lembranças, entendo o panteísmo de Spinoza, pois me ligo a singularidade de todo o universo que carrego dentro de mim, de todas as coisas que vivi, e percebo como a passado só existe para a mente, onde tudo acontece ao mesmo, e você é o Deus de seu próprio mundo. Aquilo que chamam de sonhos, coisas irreais, eu chamo de o mais profundo que há de existir no ser. É a realidade mais pura do si mesmo, é tão real quanto esta em que julgam ser a única, pois sua realidade consiste em não despertar, e em quanto corpos de sonhos é tão possível e sólida quanto qualquer outra. Desperto novamente ao mundo material, sinto cair das estalactites abstrusa das profundezas da consciência, um pensamento que me faz estremecer o corpo inteiro, mas este esbarra na languidez da língua, e a linguagem limitada não consegue expressar tamanha intensidade que possui tal pensamento. Então somente fico a indagar, incomodado pela profunda e reveladora intuição do pensamento não expressado, se esta vida também não seria apenas um sonho. Ah, nem sei mais o que pensar, nem mesmo sei se penso, ou se penso que penso não saber o que pensar. Só existe uma confusão e um estranho sentimento de estranheza por todos os lados. Eu sou o estranho, ou realmente são tempos estranhos. Quem sou eu neste ergástulo de meu ser? A incerteza de mim mesmo; a imaginação de mim mesmo; as lembranças que eu carrego; aquele que já não sonha, pois se tornou seu próprio sonho; a saudade do que não sou; a melancolia do vir-a-ser; a imaginação de meus próprios pensamentos; aqueles que passaram pela minha vida; O Tudo e o Nada...
São tempos estranhos...

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A vida desengana a esperança quando não se realiza aquilo que esperávamos, e quando realiza-se nossos desejos, e se cumprem nossos sonhos, é somente para tornar a nos tirá-los. A vida se apresenta como um mimo por nos conceder a existência, quando na verdade, não passa de uma tarefa que tem de se cumprir à força de trabalho, onde temos de suportar um fardo que nos é dado sem nossa permissão — a perda da vida que ganhamos pela sobrevivência da mesma — e que, ironicamente, ainda temos que agradecer pela árdua existência concebida para depois despachá-la, pois parece-me que o verdadeiro fim da vida é livrar-nos dela. Enquanto isso, a morte assiste a grande mentira da vida, que nada mais é que a efemeridade de uma morte precoce, e divertindo-se com a presa antes me comê-la. Não vivemos porque amamos viver, mas por não termos escolha, pois se pudéssemos prever de antemão nossa árdua batalha vindoura sem sentido, menearíamos a cabeça em sinal de renúncia à vida, e continuaríamos a dormir na quietude que reina no seio do nada. Em outras palavras, a vida é uma grande zombaria...