Enclausurada em seu quarto, sob a dor de sua própria existência sufocante, ela traça o primeiro corte na coxa. O líquido rubro brota paciente da carne ferida, escorrendo pelo chão, formando aos poucos, uma poça de alívio seguida de uma sensação libertadora. O vício de cada dia que nos dai hoje, entre a dor e sangue, que deixam nódoa escarlates conduzida pelas feridas abertas.
A dor cortante lhe envolve e faz seu corpo tremer e suar frio logo após o segundo corte, este que agora, mais profundo, ainda com a faca mesclada à sua matéria, em meio ao sangue que escorre quente, nada sente além da dor aguda; sem conforto, sem alívio, apenas a ausência da dor de ter que existir afogada na dor física dos cortes. Seus olhos se enchem d'água e os lábios tremem de dor apertando-se um no outro enquanto traça o terceiro corte, sempre aprofundando cada vez mais, como quem quisesse caçar demônios a fim de exorcizá-los à facadas. O chão do quarto se torna rubro. Ela encara o reflexo de sua face no líquido quente e pegajoso, deixando cair lágrimas salgadas que se misturam no escarlate fervente do sangue.
Ela quer parar; quer se limpar de toda aquela sujeira; esquecer a porra do estado lastimável em que se afundou, mas, novamente, como um imã que atrai o aço, a dor interior sussurra diabolicamente em sua mente fazendo-a mergulhar a faca na outra coxa... Dor. Somente a dor é real. A sensação de liberdade parece se distanciar, correndo para longe no horizonte, entre as cores do crepúsculo que anuncia à noite, perdendo-se na escuridão. Trevas engolem sua existência nefanda, junto a dor física que intensifica ainda mais os sentimentos que lhe roubam o brilho dos olhos. Um caminho sem volta, uma rua sem saída, de frente para o abismo. Para onde fora a liberdade?
Como um viciado em cocaína, que logo após o consumo a depressão lhe consome, fazendo-o desejar outra quantidade maior, ela rasgou profundamente um dos pulsos a fim de buscar a liberdade que sentira no primeiro corte. O sangue espirra pelo quarto. Ela se desespera. O medo lhe consome. Seus olhos se ofuscam como penumbra. A angustia parece não ter mais fim, como se ela já estivesse morta, e tendo de suportar o inferno de sua existência pela eternidade. Ela corta o outro pulso, rompendo os nervos e veias, jorrando sangue em sua face. Ela abafa os gritos com o travesseiro. Onde está a liberdade?
Logo seu corpo é envolvido pela sensação de formigamento, dormência, mas ainda assim o sofrimento lhe assola por dentro. A poça de sangue cobre todo o chão do quarto, suas vestes encharcadas pelo líquido rubro pesam pegajosamente em seu corpo. Cansada, se sentindo zonza, mas consciente, ela segura o cabo da faca, olha firmemente para o mesmo e sorri sarcasticamente. Aos poucos, a sensação de liberdade parece voltar para os seus braços paulatinamente. Não há mais volta, ela encarou o abismo e este olhou de volta para dentro dela, e juntos tornaram-se um só. Com dificuldade, ela leva a faca até o pescoço, sorrindo, e traça sua linha final, junto à linha final de sua vida. Caindo no abismo...
***
A noite fria se esvai, assim como sangue do corpo da jovem garota. O sol desponta no horizonte além, trazendo consigo a mais pura e almejada liberdade que os pássaros usufruem para voarem livremente, assim como a morte que a levou para bater suas asas na paz que descansa os mortos...
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